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22 novembro, 2017

No Times de hoje #180

Foi exactamente uma semana que durou a incerteza no Zimbabué. No dia 15 de Novembro, quando soubemos que Mugabe estava em prisão domiciliária soubemos ainda que os militares negavam a existência de um golpe em curso. Mugabe conseguiu teimosamente ignorar o ultimato do seu próprio partido para que abandonasse o poder... não seria a primeira vez que Mugabe conseguiria manter-se em funções após acontecimentos adversos. Ontem finalmente foi lida (mas não pelo próprio) no parlamento a declaração de Mugabe renunciando à presidência e hoje o clima era ainda de festa nas ruas de Harare.  Vive-se no entanto um ambiente de expectativa como conta o New York Times. Esperemos para ver o que acontece ao Zimbabué e a Mugabe.

O afastamento de Mugabe, aparentemente civilizado, sem escândalo nem violência, poderá não ser bom presságio para o Zimbabué na medida em que não haverá rotura com o regime que agora parece cessar. Pode isto simplesmente ser um sinal de que os militares e a ZANU-PF, não tenham nada para criticar na pessoa Mugabe nem nos 37 anos ele que esteve no poder. Poderão apenas e só não gostar de Grace Mugabe, de 52 anos, sua mulher designada para suceder ao ditador depois de este ter demitido o vice-presidente Emmerson Mnangagwa a 6 de Novembro. Com 75 anos, Mnangagwa é um dos mais antigos aliados de Mugabe tendo acompanhado o líder durante as negociações de independência do Zimbabué em 1980. Quem sempre foi leal a Mugabe não podia agora ser ultrapassado pela mulher do presidente (só desde 1996), que até há dois anos não tinha qualquer cargo político a não ser o de secretária presidencial.

No caso de só mudarem as moscas, Mugabe será quem menos tem a perder. Só não poderá vangloriar-se de que o Zimbabué é propriedade sua, mas continuará a viver sem dificuldade e não pagará pelo mal que fez ao país... a lealdade do novo líder assim o garantirá. Assim sendo, não se avizinha nada de bom nem para o Zimbabué nem para Grace Mugabe.

23 agosto, 2013

No Times de hoje #150

I've written more about Mugabe than I care to admit, so I won't indulge this time around. I simply want to mark today's inauguration that will add five more years to the 33 long seasons Mugabe has been chairing and ruining Zimbabwe's faith. Below, some unsurprising excerpts of today's article of the New York Times on the historical event.

"Robert Mugabe was sworn in as president of Zimbabwe on Thursday in a pomp-filled ceremony in the capital, Harare..."

"Observers from the African Union and the Southern African Development Community, a regional economic and trading bloc, also pointed out serious problems with the vote, but accepted the outcome."

"The Movement for Democratic Change had filed a legal challenge to the result in the country’s Constitutional Court, but withdrew it when the government refused to hand over voting materials and other evidence the opposition needed to prove its case."

"Indeed, the court decided to rule despite the withdrawal of the challenge, declaring on Tuesday that the election had been free and fair."
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escrevi demais acerca de Mugabe, por isso hoje não vou por aí além. Apenas quero marcar a tomada de posse de hoje que somará cinco anos mais aos 33 longos invernos que Mugabe lidera e arruina o destino do Zimbabué. Abaixo alguns excertos pouco surpreendentes do artigo de hoje do New York Times sobre o evento histórico.

"Robert Mugabe tomou posse como presidente do Zimbabué esta quinta-feira numa cerimónia de pompa na capital, Harare..."

"Observadores da União Africana e da Comunidade de Desenvolvimento Sul Africano, um bloco económico e de comércio regional, também encontraram graves problemas no processo eleitoral, mas aceitaram o resultado."

"O Movimento para a Mudança Democrática iniciou um processo legal de contestação aos resultados das eleições no Tribunal Constitucional, mas desistiu do mesmo processo quando o governo recusou divulgar documentos eleitorais e outros materiais que a oposição precisava para provar a sua tese."

"De facto, apesar da retirada da contestação, o tribunal decidiu na terça-feira declarar as eleições como livres e justas."

22 fevereiro, 2007

No Times de hoje # 28

A queda das ditaduras é um fenómeno intrigante: o sistema corroi-se por dentro e ainda assim aguenta-se durante tempo que para alguns parece uma eternidade.

Isto a propósito de um artigo que vem hoje no New York Times acerca da festa de aniversário de Robert Mugabe, ontem em Harare. Na foto vê-se um Mugabe feliz, segurando 83 balões (um por cada ano de vida) numa luxuosa festa para familia e amigos, que contrasta com o fecho das padarias no Zimbabwe porque as regulamentações governamentais as impedem de continuar no mercado sem perder dinheiro. A inflação no Zimbabwe ronda os 1600% ao ano.
É por demais claro que as políticas de Mugabe falharam e que a economia está a entrar em colapso. Ainda assim, o regime tem força (de base militar) para reprimir manifestações e manter a aparente calma institucional enquanto o país não tem pão para comer. Em simultâneo, há a imprensa (controlada), que louva Mugabe como um "visionário ímpar" e um "herói internacional entre os pobres e oprimidos". Mugabe tem ainda a coragem de adiar as eleições (previstas para 2008) para 2010 e de dizer que acredita que os eleitores lhe darão mais 6 anos (para juntar aos 27 que já tem) de poder caso ele se venha a candidatar.

A história mostrou-nos já vários exemplos de regimes podres que cairam apenas com um sopro, quando nada o faria prever. Outros houve que cairam após anos e anos de duras guerras com uma enorme perda de vidas. Esperamos para ver quando cai Mugabe.

09 dezembro, 2006

No Times de hoje # 19

Robert Mugabe está à frente do país das cataratas Victoria desde 1980, ano em que foi eleito (!) Primeiro-ministro. O país está há vários anos submetido a sanções internacionais, devido à má governação e à constante violação de direitos humanos. A população é uma das mais flageladas internacionalmente (do they know it's christmas?), mas Mugabe, com 82 anos, está longe de pagar pelo que fez e faz no Zimbabwe. Mais um a juntar à lista de Pinochet...

Ora aí está mais um exemplo de um país que certamente não merece o líder que tem. No Times de hoje vem um pequeno editorial relatando a dramática situação do país. Segue na íntegra.
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The Agonies of Zimbabwe

Published: December 9, 2006

One problem with labeling states as pariahs is that it’s all too easy to forget about them. Robert Mugabe’s Zimbabwe is a prime example: it is under economic sanctions by the United States and the European Union and few tourists go there, so the suffering of its people is largely out of sight and out of mind. Yet things are truly terrible.

The latest indication comes in a United Nations-financed report by Zimbabwe’s own social welfare ministry. More than 63 percent of the rural population, and 53 percent of the urban population, couldn’t meet "basic food and non-food requirements" in 2003, the last year for which figures were available, and things have gotten far worse since. Malnutrition among children is up 35 percent, people without access to health care is up 35 percent, H.I.V./AIDS afflicts 18.1 percent of the population, unemployment is over 70 percent, life expectancy is down to 36.

Mr. Mugabe’s government blames sanctions, weather, former colonial rule, market conditions. Yet the real culprit is Mr. Mugabe, who has run Zimbabwe since 1980. Now 82, the president is a master at the blame game, accusing the West of colonialism and racism when it criticizes his scheme to redistribute white-owned commercial farms among blacks, or the cruel expulsion of 750,000 slum dwellers from cities, or whatever else he does.

There’s not much the West can do; more sanctions would only bring more suffering. But Africans could make a difference, if they joined in condemning Mr. Mugabe. For understandable reasons, African leaders have been reluctant to publicly criticize fellow Africans. But as Kofi Annan, the United Nations secretary general, declared yesterday, “human rights are perhaps more in need of protection in Africa than in any other continent.”

The suffering Zimbabwean people are in desperate need of protection, the sooner the better.

17 janeiro, 2009

It's an ABSURD SCANDAL...

... what's going on in Zimbabwe these days: under the regime of Mr. Mugabe, the health system has now collapsed. The country is a living hell. What does Mugabe say about it? Not much other than “I will never, never, never surrender... Zimbabwe is mine.” A shame for the millions of people living under his rule. The current state of affairs has been sadly announced and it only surprises the world by the fast rate of decay.

Mugabe may well think he'll never never never leave. And he is right to think so: the military are still faithful (likely still being paid),
neighboring countries are cowardly following the don't ask don't tell policy, the International community still invites him for summits while imposing sanctions that would make any ruler break down and give up power. This is no regular ruler, but a rather ruthless dictator. He clearly does not give a damn if the whole country dies. He cares for power, and power alone.

But Mugabe will die... like everybody else. I see two alternatives only: either he dies of old age (he's 84) if he has enough cash to support the tiny faithful microsystem of staff and military around him, while the rest of the country rots; or he doesn't die of old age but finds death sometime sooner. Accidentally or not. For the Zimbabweans, let's hope it's sooner than later.

24 maio, 2011

No Times de hoje #128

Today the New York Times brings an article on the recent book by Peter Godwin describing the atrocities lived in Zimbabwe over the past thirty years. Unsurprisingly, last week Mugabe announced he intends to run for president later this year and sure enough he will win once more. Mugabe's regime endures based on fear alone but there are some very brave people in Zimbabwe determined to cause some disruption in the daily life of the oppressive regime. The book is an ode to all those who stand against the status quo, even when paying the highest price for their actions. The book is called The Fear: Robert Mugabe and the Martyrdom of Zimbabwe.
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One of the most haunting stories in this volume is that of Chenjerai Mangezo, who was nearly beaten to death after winning as a movement candidate for a rural district council. Though his body was completely immobilized in plaster, Mr. Godwin says, Mr. Mangezo insisted on attending the swearing-in ceremony, and he was driven there lying on foam mattresses heaped in the back of a pickup truck. He has continued to attend council meetings, sitting alongside some of the very Mugabe supporters who oversaw his beating.

What, besides courage, has enabled Mr. Mangezo to sit there with his persecutors? “Is it fatalism, a quality that Westerners see in Africans?” Mr. Godwin asks. “Westerners often mistake African endurance, and the lack of self-pity, for fatalism. No, I think the other quality in Chenjerai Mangezo is patience, a dogged tenacity. He hasn’t given up on getting justice. But he will wait for it.”

02 julho, 2008

Num país a fingir #19

"Foi atribulada a chegada de Robert Mugabe a Sharm-el-Sheik para a cimeira da União Africana. Um jornalista britânico lançou o isco a Mugabe: 'Em que base se considera Presidente do Zimbabué?'. O líder africano não hesita: 'Na mesma base do primeiro-ministro Gordon Brown'. A segurança aperta o jornalista, Mugabe irrita-se: 'Não somos uma colónia!' E remata com um pouco diplomático: 'Britânicos idiotas!'."
no
Diário Económico de hoje (p. 46) ou o vídeo do youtube aqui

Ainda alguém duvida que está senil e caduco? Seria bom que na cimeira da UA os líderes africanos fizessem ver a Mugabe o que o resto do mundo tem já tentado. Tirem-no de lá e depressa!

06 setembro, 2019

Coisas que não mudam #518

Como toda a gente, também os ditadores se vão embora. Hoje foi Mugabe o já afastado líder histórico do Zimbabué, que morreu em Singapura. À semelhança de Mandela, Mugabe também esteve preso durante o regime colonial, mas contrariamente àquele tornou-se um líder absoluto na luta por um sistema de partido único que deixou o Zimbabué mais pobre e perenemente à beira da rotura

Para além de ter morrido sem assumir culpa ou pretar contas, choca ainda o que diz sobre Mugabe o actual presidente do Zimbabué que há dois anos esteve por trás do seu afastamento sem alarde:

"Cde Mugabe was an icon of liberation, a pan-Africanist who dedicated his life to the emancipation and empowerment of his people. His contribution to the history of our nation and continent will never be forgotten. May his soul rest in eternal peace"

Significa isto que no Zimbabué, mudam as moscas.

18 abril, 2010

Foi neste dia #131 (1980)

Há trinta anos o Reino Unido reconhecia a independência da Rodésia e nascia um novo país num clima de optimismo expectante: Zimbabwe.

Nos arquivos online da Economist, encontrei este artigo de 8 de Março de 1980 que relata o processo limpo e democrático (à Inglesa) de transição de poder. O vencedor destacado das eleições livres dava pelo nome de Robert Mugabe. O artigo colocava algumas reservas relativas às tendencias Marxistas de Mugabe, mas no geral exalava esperança para uma nação com um passado colonial racista e marcadamente opressor. Ilusão. É possível que tenha havido alguma razão para optimismo inicialmente (quiçá devido à moratória de dez anos impedindo alterações constitucionais), mas como todos os líderes que se habituam à cadeira do poder, Mugabe esqueceu as promessas de paz e conduziu o seu Zimbabwe à espiral de decadência que parece não ter fim e que piora com o passar dos anos. A farsa das eleições de 2008 nem sequer atingiu o limiar mínimo da credibilidade necessário para convencer o país daquilo que o estrangeiro já há muito desacreditou... a perseguição a jornalistas internacionais não ajuda.

Há duas semanas, a sequência de artigos de Nicholas Kristof no New York Times mostrava uma alarmante saudade nostalgica do antigo regime e uma população jovem que sobrevive dia a dia.

Finalmente um artigo com uma perspectiva distinta e porventura animadora. Em todos os países com antecedentes coloniais mais ou menos racistas emergiram sociedades bastante divididas, com o expoente máximo no apartheid em África do Sul. Como a situação actual do Zimbabwe não poderia ser pior, brancos e pretos, destituídos e desalentados, unem-se em torno de um objectivo comum contra o regime que deixou o país em farrapos. Ironicamente e sem o desejar, Mugabe gerou a união racial no Zimbabwe... mas a que preço!

16 outubro, 2008

No Times de hoje #71

No último debate presidencial antes das eleições houve, de facto, muitas referências ao tal Joe Wurzelbacher canalizador do Ohio, agora conhecido por "Joe o canalizador". Faz hoje a capa das notícias como o verdadeiro assunto central do debate. O artigo de hoje do New York Times resume o debate de ontem e claro que não esquece o Joe... que é como quem diz o Zé.
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Na casa de loucos que é hoje o governo do Zimbabwé ninguém se entende. O assunto não é de espantar na sequência do acordo governamental entre o ainda presidente Robert Mugabe (derrotado nas eleições), e a antiga oposição (vencedora das eleições, mas ainda chamada de oposição não sei bem porquê... talvez para manter as aparências) liderada por Morgan Tsvangirai. Parece que o acordo original, da iniciativa do ex-presidente da África do Sul Thabo Mbeki (ao menos há quem tenha vergonha perante os seus próprios cidadãos, embora não pareça ter respeito pelos cidadãos do país vizinho) deixou muitos detalhes por definir e agora Mugabe, como era esperado, está a tirar partido disso para fazer o que quer e lhe apetece. As oportunidades douradas da eleição 29 de Março e da segunda volta de 27 de Junho foram desperdiçadas, não pelos eleitores do Zimbabué, que sofreram e continuarão a sofrer na pele as vontades de um presidente demente, mas por uma comunidade internacional apática representada por Nações Unidas que mais querem defender o status quo que denunciar amizades hipócritas e de conveniência e ainda por vizinhos "amigos" que só querem o bem do Zimbabué. Triste dizer, mas é um caso perdido. Para manter as aparências prefiro a Hyacinth Bucket que ao menos me faz rir a cada vez que chama pelo marido... Richaaaaaard!

05 março, 2013

No Times de hoje #144

Lá foi mais outro. Não me considero cruel (quem se considerará... certamente nem Chavez, nem Mugabe, nem Salazar), mas é-me difícil nestes dias separar o homem que morre, do político que ficou no poder mais que o tempo devido e se tornou um ditador. Hoje que morreu Chavez, é-me difícil sentir a pena que sentiria por qualquer ser humano que tivesse sofrido o que Chavez sofreu nos últimos meses da sua vida. Também não me apetece cantar nem dançar, mas não posso dizer que tenho pena. Segue parte de um diálogo de há pouco com uma amiga brasileira... nada como brasileiro para levantar o humor ;-)

ela fiquei com pena... sofreu muito. Era um idealista... apesar de nao ser nada mais que um ditador.
eu começam todos como idealistas: Fidel, Salazar, Mussolini, Ceausescu, mas ficam sempre mais tempo do que devem.
ela isso é verdade.
eu como ser humano é de facto de ter pena de alguém que morre com tanto sofrimento; mas como ditador... talvez tenha sido a morte adequada. A quantidade de pessoas que sofrem atrozmente sob regimes ditatoriais? Salazar morreu sem juízo e sem dor... não foi a morte merecida.
ela cada um tem seu destino!
eu é... mas por vezes influi no destino dos outros da pior maneira possível.
ela com certeza. O meu: serei bem boazinha, para ir embora dormindo como anjo...
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There goes another one. I don't see myself as a cruel person (who does... most certainly neither Chavez, nor Mugabe, or Salazar), but I find it hard in days like this to separate the man who dies from the politician who overstayed his welcome and became a dictador. Today Chavez died, and I find it hard to feel sorry and sad as I would for any human being that had suffered as Chavez did in the last months of his life. I don't feel like celebrating either, but I can't say I feel sorry. Here's part of a dialogue with a brazilian friend just a little while ago... nothing like talking to a brazilian to get in better spirits ;-)

her I felt sorry... he suffered a lot. He was an idealist... even though he was no more than a dictator.
me they all start as idealists: Fidel, Salazar, Mussolini, Ceausescu, but they overstay their welcome.
her that's true.
me as a human being it is right to feel sorry for someone who dies in so much suffering; as a dictator... maybe it was the right kind of death. How about the large number of people that suffer so much under dictatorships? Salazar died with little judgement or pain... he didn't deserve it.
her to each his destiny!
me right... but some times one's destiny influences others' in the worst possible way.
her certainly. Mine: I'll be very good, so that I go while I'm sleeping like an angel...

06 outubro, 2015

Sem título #51

The Economist this week brings not one but two articles on Zimbabwe. Shocking numbers this time around: 1.5 million people are currently in need of food aid due to drought; electricity in Harare is often cut 18 hours a day; Robert Mugabe is 91 years-old. How long more can the country go on?
O Economist desta semana traz não um, mas dois artigos sobre o Zimbabué. Os números que chocam, desta vez, são: 1.5 milhões de pessoas a precisar de ajuda humanitária devido à seca; a electricidade em Harare frequentemente está cortada 18 horas por dia; Robert Mugabe tem 91 anos. Quanto tempo mais é que o país aguenta?

20 março, 2007

No Times de hoje #30

Não acontece todos os dias o New York Times trazer dois artigos sobre África. São bem diferentes.O primeiro sobre Zimbabwe e o seu Mugabe cuja espiral de loucura atenta os limites do absurdo. Poupo aqui a descrição do que o ditador decide fazer com quem lhe faz frente e limito-me a transcrever a degradante e aflitiva situação em que o país se encontra: a hiperinflação faz com que a moeda do país não tenha grande valor e neste momento há escassez de leite, petróleo e gasolina. Menos de 1 em 4 pessoas têm emprego e a esperança média de vida desceu de pouco menos de 60 anos em 1990 para cerca de metade.
É difícil imaginar cenário pior... e Mugabe continua a tapar o sol com a peneira e a empurrar as culpas para o exterior (os brancos EUA e Reino Unido)... será talvez altura de os países Africanos se revoltarem com a situação naquele país?
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O outro artigo é sobre Angola, apresentada como o novo membro da OPEP e aquele em que as exportações do ouro negro mais crescem, esperando-se que para o ano atinja os níveis de produção do Koweit. São milhões a serem injectados naquele país pelos vários gigantes petrolíferos mundiais (Exxon Mobil, Chevron e BP entre outros), que descobriram que Angola é talvez o único país do mundo com reservas intactas. Vamos ver se tanto dinheiro é canalizado para o desenvolvimento do país e a melhoria das condições de vida da população, ou se vamos assistir à criação de um novo Zimbabwe. Ficam alguns excertos."In the capital, Luanda, hotel rooms cost more than $200 a night and are booked two months in advance by the oil companies; three times a week, nonstop charter flights known as the Houston Express ferry workers to and from Texas; offshore, dozens of oil fields have been discovered and given names like Cola and Canela." (...)

"The nation’s contradictions are glaring. Angola earned more than $30 billion last year from its petroleum exports. But according to a recent
World Bank report, 70 percent of the population lives on the equivalent of less than $2 a day, the majority lack access to basic health care, and about one in four children die before their fifth birthday."

"President José Eduardo dos Santos has shown little interest in improving transparency of oil accounts. Last month, his government arrested a prominent British transparency campaigner, Sarah Wykes of Global Witness, who was visiting the northern oil region of Cabinda. Ms. Wykes, who has lobbied producers to publish their oil accounts, was jailed for three days and accused of being a spy. [She returned to Britain on Monday after the authorities allowed her to leave the country, Global Witness said.]"

13 agosto, 2008

Num país a fingir #21

Mais uma vez Mugabe consegue o que quer. Desta vez, e espantosamente, com o aval de África do Sul... é por estas e por outras que África é um continente perdido. Só custa ver que milhões de inocentes pagam com as próprias vidas os devaneios dos senis e caducos.

27 janeiro, 2008

No Times de hoje #56

Ditadores... morrem como os outros. Hoje foi Suharto, há pouco mais de um ano Pinochet, há dez Mobutu. Franco, Salazar e Mussolini já lá vão há muito.

Há-de chegar a vez de Mugabe, Castro, Chavez e Kim Jong-Il, entre outros... e quando chegar, haverá contraste crispado: gente a chorar pelas ruas da capital e a tinta dos jornais internacionais que sem acanhamento descreve o regime que não tem, nem nunca teve, desculpa. O preço pagou-se em vidas humanas.
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Suharto of Indonesia, whose 32-year dictatorship was one of the most brutal and corrupt of the 20th century, died Sunday in Jakarta. He was 86.

16 maio, 2008

Coisas que não mudam #39

Fenómenos hiper-inflacionários... o que muda são os países e as magnitudes. Segue o pequeno artigo da Economist na íntegra.
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Billionaires' woe
May 16th 2008From Economist.com

Zimbabwe issues a Z$500m banknote, as inflation rockets to unbelievable highs

A BOTTLE of beer may cost half a billion dollars; by next week it could be a billion. Hyperinflation in Zimbabwe reached a terrifying 355,000% in March, with prices doubling roughly once a week. It is probably much higher now. In a vain attempt to keep up, the country has just issued a Z$500m banknote, which is worth some $2 (or less by the time you reach the end of this sentence). The billion-dollar note is surely on its way. After a decade of recession Zimbabwe is reaching all sorts of extremes: it has the fastest-contracting peacetime economy; its people are fleeing both repression and chronic hunger; life-expectancy is plummeting to the mid-20s. Despite all this, Robert Mugabe, the incumbent, expects to win a run-off presidential election on June 27th.

06 dezembro, 2007

Memórias # 6

Os dias em que o jantar era peixe cozido (normalmente as sextas-feiras) eram recheados de queixas e reclamações. O mesmo se passava com as ervilhas e os espinafres, embora esses não tivessem dia definido para aparecer lá por casa.

Lembro-me do garfo fazer inúmeros trajectos pelo prato mas dificilmente chegava às papilas gustativas e quando chegava, pelo tempo que tinha demorado por entre curvas e contracurvas, estava já o peixe frio e sabia ainda pior do que quando estava quente!

Como tinha de o comer, demorasse o tempo que demorasse, e independentemente das reclamações e lágrimas, mais de contrariedade que de desgosto, a minha mãe sempre ía dizendo: “tens muita sorte, há muitos meninos que bem queriam esse peixinho e não o têm para comer”. Como a comunicação social era perita em exibir, na altura, crianças famintas na Etiópia, eram sempre essas as imagens que me vinham à cabeça com tal conversa.

Vem isto a propósito da Cimeira UE-África. Oxalá a agenda não reflicta as primeiras impressões: parece que o mundo parou com a chegada do Mugabe e com a ausência de Brown. O forte de S. Julião da Barra transformou-se num parque de campismo de luxo, e com vista para o mar, com tendas trazidas directamente da Líbia para hospedar Kadhafi que chegou com uma comitiva de 200 pessoas e há três mil policias destacados para esta operação que vai virar Lisboa do avesso.

Em minha casa também. Não me lembro de alguma coisa se ter feito para aliviar a fome dos “meninos” que provavelmente não teriam morrido se estivessem sentados ao meu lado naquelas sextas-feiras de má memoria Mas lá que se falava falava.