04 setembro, 2016

Vou falar-vos do meu Pai


Nos últimos dias tenho pensado nisto. O que diria a alguém que não o conheceu e, por infortúnio da sorte, já não o poderá fazer.

E isto não é nada fácil. Pois se para vocês talvez seja o tio,  o cunhado, o primo, o chefe, o vizinho, o amigo, para mim é aquele que não poderei substituir: o meu Pai.

O meu Pai foi uma pessoa séria, reservada, leal, obstinadamente organizada, de ideias fixas e que raramente mudava de opinião. Muitas das discussões que tivemos deveram-se sobretudo a isso. Acho que também nisso éramos parecidos.

Um misto de emoções assola-me nos últimos (longos) dias. Se por um lado, e de forma egoísta, ainda não consigo acreditar que nunca mais vou sentir aquelas mãos papudas em festas desajeitadas na minha cabeça, ou pesadas em cima dos meus ombros, por outro quero muito acreditar que há certamente uma grande festa num sítio muito melhor que este onde vivemos, com reencontros de pessoas também muito saudosas dele e que de lá vai acompanhando o que deixou precocemente cá por baixo.

Mesmo assim, o facto de saber que transporto o mesmo nome e que, ainda por cima, temos algumas semelhanças, é uma enorme herança e responsabilidade.

Sei que continuarei a ver-te nas coisas bonitas, nos pratos apetitosos (nos da mãe sempre), nas praias calmas, nas discussões com polícias, nas gravatas azuis, nos dias em que o Belenenses ganhar (e nos que perder também, fica descansado) e quando for preciso falar para evitar injustiças.

Acho que cresci Pai, mas era cedo, muito cedo ainda para isso. Já tenho saudades e, apesar de querer muito pensar que há forma de dar a volta, sei que não as mato.

Costumavas dizer “quando se nasce não se calça 40”. Acho que morro a calçar 36/37, mas prometo que disso não desço.
Beijo

2 comentários:

Atlantico Ocidental disse...

"aquelas mãos papudas em festas desajeitadas na minha cabeça, ou pesadas em cima dos meus ombros"

E era tal e qual.

ana rita disse...

Algumas partes também descrevem o meu pai. Um abraço grande para ti.