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09 abril, 2021

Sem título #166

{texto em português abaixo}

At times I find myself wondering what cats may think. The world must be so weird for the little felines who keep a continuous effort to be constantly aware of every element surrounding them, when awake. At times they are so scared of unexpected noises that they run and hide in a safe place. Other times they get picked up from the floor immediately loosing control of the firm ground beneath their paws... when desperate only their claws and teeth can save them, especially if they don't know or trust the person who lovingly picked them up just to caress them.

We humans on the other hand, are enthralled by the little furry creatures even if we acknowledge they are often selfish, deceitful, and at times bitting. Perhaps our fascination for cats has to do with how much they remind us of ourselves. Dogs are so inhumanely docile and kind they are worthy of our unbounded admiration, but we don't see much of us in them. Tiny dogs that behave like cats, are generally irritating maybe because they don't follow the stereotype... prejudice, that indelible human trait, lacking in cats. Possibly our affection for cats is no more than demonstrated narcissism. Surely much has been written about this that I don't have the patience to read. But I digress, after three years of regularly hanging out with a lovely cat I don't own.

For all inscrutable thoughts cats may have, this picture offers abundant clarity: "what a beautiful tail I have!"
Por vezes dou comigo a pensar no que pensarão os gatos. O mundo deve ser tão esquisito para os pequenos felinos que, quando acordados, se esforçam continuamente por estar em constante controlo de todos os elementos que os rodeiam. Às vezes ficam tão assustados com barulhos inesperados que correm a esconder-se num local seguro. Outras vezes são levantados do chão perdendo de imediato o controlo da firme base debaixo das patas... em desespero, apenas as garras ou os dentes os podem salvar, especialmente se não conhecem ou não confiam na pessoa que carinhosamente os levantou e que só lhes queria fazer festinhas.

Nós humanos por outro lado, encantados com as pequenas fofas criaturas, mesmo admitindo que são egoístas, traiçoeiras e que às vezes mordem. Talvez a nossa fascinação por gatos tenha a ver com o quanto eles nos lembram de nós próprios. Os cães são tão inumanamente dóceis e amáveis que merecem a nossa desmedida admiração, mas nós não nos revemos muito neles. Pequenos cães que se comportam como gatos são em geral vistos como irritantes, talvez porque não seguem o estereótipo... preconceito, esse indelével traço humano que falta aos gatos. Possivelmente a nossa afeição aos gatos não mais é que uma manifestação de narcisismo. Certamente muito já se escreveu sobre isto que não tenho paciência de ler. Divago, após três anos de convivência regular com um adorável gato que não me pertence.

Para todos os impenetráveis pensamentos que os gatos possam ter, esta fotografia abunda em clareza: "que linda a minha cauda!"

12 março, 2018

Coisas que não mudam #438

{texto em Português abaixo}

Barring a health scare six years ago, that was resolved rapidly and without sequels, I'd say I'm a pretty healthy person. I have no chronic or recurring conditions, and I am usually pretty resistant to pain. This may all be changing since it's the second time I lose my voice this winter. It's possible that the type of cold/flu virus going around this year may be more resistant, but age, or the change of climate* since September can also be plausible explanations... fact is that today my health (or the lack of it) interfered directly with my job and prevented me from doing it. I had to rely on three other people to make things happen as usual. If I am bothering these many people I better be truly incapacitated, so it's kind of annoying that nothing really hurts: I have no pain or fever, I am able to walk in and out of class, take notes on student presentations to evaluate them as in previous weeks, but the moment I need to conduct class discussion I cannot make myself heard and if I strain my voice, it gets worse.

Once again, it's in times like these that kindness all around manifests itself, either because you need a favor (teaching a class is a big one, but also essential is borrowing an umbrella for a few days because on Saturday you left yours at a restaurant that only reopens on Wednesday), or simply because people realize the state you're in and offer their knowledge or whatever they have that can possibly make you feel better (two friends have offices well stocked of pharmaceutical supplies, or another friend that lives near a bigger pharmacy offered to bring anything I needed). The contrast with the NHS is notorious: as I tried to get a walk-in appointment at the University's health center, and mentioned I had no booked appointment, their answer was "we're terribly sorry but no one can see you today." I do think they were actually terribly sorry about it, as the deplorable sound of my voice made it clear to them that I should not be teaching 4 classes today. Others at work told me the walk-in clinic I am assigned to by the NHS (which, unlike the University health center, is not in my area of residence) would make me wait forever... so thank you very much, but no thanks. Might as well consult with abroad for the appropriate medication given the symptoms and buy it over the counter. And the advice came, generous as always!

On a lighter note, there were quite a few amusing situations throughout the day. In the one class I conducted on my own, I started by apologizing for the low tone of voice telling the students they had two choices: they could either seat closer and hear me better, or they could decide to stay farther away to avoid contagion, if there is any danger of it. In the other three classes students were surprised to see me enter the classroom in company of another tutor, but their faces soon turned to an expression of worry and understanding as I briefly explained why I could not teach today. In the few and brief conversations I held today around the department, it was fun to see everyone whispering back at me (regardless of gender or age), as if they too had a momentary throat problem. The only person who did not whisper back to me has a normal tone of voice which is already very soft (possibly one of the lowest tones of voice I have ever heard) so it was funny to see that he was the one who had the upper tone today... when I spoke to him from some 5 meters distance he would say "I have no idea what you just said," (welcome to my world!!) so I walked two steps closer and repeated the whisper. Finally, telling all of this to my sister at the end of the day, she said "the world would be a better place if all your conversations happened at whispering level" :-)
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*There are so many brits following the historical tradition of living in Portugal in search of a better climate, and I am the one doing the reverse!
À excepção de um susto há seis anos atrás (resolvido rapidamente e sem sequelas), eu diria que sou uma pessoa saudável. Não tenho doenças crónicas ou recorrentes, e tenho alguma resistência à dor. É natural que tudo isto se esteja a alterar dado que é a segunda vez que perco a voz este inverno. É possível que a estirpe de virus/constipação este ano seja mais resistente, mas eu acho que a idade ou a mudança de clima* desde Setembro, também podem ser explicações plausíveis para o que está a acontecer... o facto é que o meu estado de saúde hoje interferiu directamente com o meu trabalho e não me permitiu fazê-lo. Tive de chatear três pessoas para poder levar a cabo as aulas normais de qualquer outra segunda feira. Se é preciso importunar tanta gente é bom que esteja verdadeiramente incapacitada, por isso não deixa de ser irritante que nada me doa: não tenho dores, nem febre, sou capaz de entrar e sair da aula sem problemas, escrever notas para avaliar a apresentação dos alunos tal como nas outras semanas, mas no momento que é preciso liderar a discussão da aula não me consigo fazer ouvir e se esforço a voz é pior.

Uma vez mais é em alturas como esta, que a amabilidade das pessoas à nossa volta se manifesta, ou porque se precisa de um favor (dar uma aula é um grande favor, mas não menos importante é emprestar um guarda chuva dado que o meu, no sábado, ficou esquecido num restaurante que só reabre quarta-feira), ou simplesmente porque as pessoas se apercebem do meu pobre estado e oferecem o que podem para me fazer sentir melhor (duas amigas teem uma farmácia ambulante no gabinete que puseram à minha disposição, outra vive perto de uma grande farmácia e ofereceu-se para trazer o que eu quisesse). O contraste com o Serviço Nacional de Saúde é notório: tentei ser vista por um médico no centro de saúde da universidade mencionando que não tinha consulta marcada mas que dava hoje 4 aulas e tinha a voz naquele estado e a resposta foi "sinto mesmo muito, mas ninguém a pode ver hoje." Eu até acredito que muito sintam, quem quer que oiça o deplorável estado da minha voz e saiba que tenho de dar aulas assim não pode sentir-se de outra forma. Outros colegas disseram que se eu for à clinica da minha área de residência (que, ao contrário do centro de saúde da universidade, não é perto de onde vivo) esperarei eternamente por uma consulta... obrigado, mas não obrigado. Optei por obter uma consulta à distância acerca da medicação apropriada para os meus sintomas e depois comprar a medicação adequada que e de venda livre. A resposta não se fez esperar e foi generosa, como sempre!

Ao longo do dia, houve várias situações divertidas. Na única classe que dirigi sozinha, comecei por pedir desculpa por não poder falar mais alto dizendo aos alunos que tinham duas hipóteses: sentar-se mais perto para me ouvir melhor, ou mais longe para evitar o contágio, se perigo houver de tal. Nas outras aulas, foi interessante ver a expressão de surpresa dos alunos quando me viram entrar em aula acompanhada por outro tutor; mas essa expressão transformou-se rapidamente em compreensão e preocupação assim que eu abri a boca para dizer que não podia dar aula hoje. Nas poucas e breves conversas que tive com colegas do departamento foi divertido ver que toda a gente (independentemente de sexo ou idade) me respondia num sussurro como se também eles/elas tivessem um problema momentâneo na garganta. A única pessoa que não o fez foi um colega, cujo tom de voz normal já é muito baixo (possivelmente eu nunca conheci ninguém que fale tão baixo), por isso foi divertido ver que hoje era ele que falava alto por comparação... quando eu lhe fiz uma pergunta a uns cinco metros de distância ele disse apenas "não faço nem ideia do que acabaste de dizer," (é para que saibas o que eu passo todos os dias, pensei eu!!) o que me fez aproximar dois passos e repetir o sussurro. Finalmente, ao contar tudo isto à minha irmã no final do dia, o que lhe aprouve dizer foi "o mundo seria bem melhor se todas as tuas conversas fossem sussurradas" :-)
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*Há tantos ingleses que seguem a histórica tradição de viver em Portugal à procura de melhor clima, logo tinha eu de fazer o percurso contrário!

21 dezembro, 2017

Sem título #96

Viver no Reino Unido há três meses ensinou-me algumas coisas. Para além da moeda diferente (a que ainda me estou a habituar), do sotaque que muitas vezes me escapa ao entendimento, dos feriados inesperados de que o google me informa (adorei o doodle do dia de Santo André, padroeiro da Escócia, a 30 de Novembro), do trânsito que circula pela esquerda e que provoca atrapalhação ao atravessar a rua e ao aceitar boleias de amigos (dirijo-me sempre à porta do condutor), fiquei também a saber um pouco mais sobre os ingleses... embora esteja no Reino Unido, vivo efectivamente na Inglaterra e para além de um ou outro aluno/colega da Escócia ou Irlanda do Norte (de Gales não conheço ninguém), as pessoas com quem convivo e trabalho são na grande maioria inglesas, havendo também algumas estrangeiras como eu.

No trato e no feitio, os ingleses são bastante parecidos com os americanos, simpáticos, acolhedores e amigáveis, apesar de um pouco mais contidos (como aliás são os europeus em relação aos norte e sul americanos), mas essas pequenas diferenças esbatem-se. Sendo portuguesa, a diferença que me é mais visível é que, ao contrário dos americanos,  os ingleses sabem onde fica Portugal e muitos (muitos mesmo!) até já conhecem. É com uma alegria sincera e sorriso efusivo que me dizem, quando se apercebem qual é o meu país de origem: "Gosto tanto do Algarve!"

Ora, todo o português sabe que o Algarve é dos ingleses especialmente nos meses de verão à excepção de Agosto, mas também em época baixa. O que eu desconhecia, (certamente porque os ingleses que conheci até há três meses atrás, se contam pelos dedos de uma mão), é que a grande maioria dos ingleses que já vieram a Portugal não conhecem Lisboa. Voam directamente para Faro e passam uma ou duas semanas no seu local de eleição do Algarve e dali voltam para de onde vieram. Dizem com orgulho que vão para Vila Moura, Albufeira, ou Lagos há 20 anos, que conhecem já os restaurantes locais com o melhor peixe e que conhecem o dono do restaurante pelo nome, mas a Lisboa nunca foram. E quase todos ficam sem graça de o dizerem... a conversa era sobre o Algarve e só foi para Lisboa porque eu a levei para lá. Alguns apercebendo-se no momento do meu choque quase pedem desculpa. Talvez valesse a pena à TAP fazer publicidade do Portugal stopover não só na América como também no Reino Unido.

Certo dia num grupo de amigos, uma colega do Ecuador (que nunca foi ao Algarve) disse que tinha adorado Lisboa mas que gostou bem mais do Porto. Os que nunca tinham ido a Portugal, ou que só tinham ido ao Algarve, ficaram curiosos e fizeram-me perguntas que me levaram não só a falar daquelas cidades, mas também das ilhas. 

Um dos que nunca tinha estado em Portugal perguntou se eu recomendava que ele fosse primeiro ao Porto ou à Madeira. Eu disse que Lisboa tinha bem mais que ver numa primeira visita, mas que o Porto e a Madeira eram também óptimos destinos a visitar. De seguida perguntou qual era a melhor altura para visitar, ao que respondi que o clima português é bem mais ameno que no Reino Unido durante todo o ano. Mas ele queria mesmo era saber quando é que podia ir à água... aí eu confessei que era a pessoa errada para fazer aquela pergunta. Tendo nascido e crescido em Portugal eu só vou à água no verão e, como sou friorenta, às vezes nem em Agosto a água está a uma temperatura que eu consiga tolerar. No entanto disse-lhe que é sobejamente conhecido dos portugueses, que as águas do Algarve banham há décadas, os ingleses de Março a Outubro e os suecos, talvez de Janeiro a Dezembro. É só marcar a viagem!

02 fevereiro, 2017

Coisas que não mudam #388

Dia 2 de Fevereiro vem sempre 40 dias depois do Natal e marca a festa da Apresentação de Jesus no templo e da Purificação de Nossa Senhora. De acordo com a tradição judaica uma mulher que desse à luz um filho ficaria impura por 7 dias e não poderia ir ao templo por mais 33. No final desse tempo, regressaria ao templo para apresentar a criança e levar o que estava escrito na Lei de Moisés para sacrifício: um cordeiro e um par de pombas, ou rolas.

É esta a passagem que se celebra hoje no calendário cristão. Estando José e Maria com o menino no templo para apresentar os sacrifícios da lei mosaica perante Simeão, este recebeu o menino em seus braços e exclamou:

"Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação,  que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo." (Lucas 2:29-33) 

Esta imagem da luz e da purificação está na origem da festa de hoje, dia 2 de Fevereiro, dia de Nossa Senhora da Luz, das Candeias (expressão talvez mais antiga e que já pouco se ouve), ou da Candelária (associada aos países de língua espanhola, e com origem nas Ilhas Canárias de onde é padroeira) ou também Nossa Senhora da Apresentação, ou da Purificação. Desde o século XI afirmou-se a tradição de trazer à igreja uma vela (em inglês candle) que era benzida e levada para casa para usar durante o ano. Em alguns lugares há ainda hoje tradições populares e/ou religiosas de procissão de velas. Nos países anglo-saxónicos este dia é conhecido por Candlemas, palavra com construção semelhante a Christmas.

No calendário do ano, este dia encontra-se mais ou menos a meio caminho entre o solstício de inverno (no ano passado foi a 21 de Dezembro), e o equinócio da primavera (este ano será a 20 de Março). Ou seja, já lá vão 43 dias de inverno e faltam ainda 46 para a primavera, são mais ou menos seis semanas para cada lado. Historicamente os povos germânicos acreditavam que a meio do inverno os ursos (ou outros animais hibernantes) acordavam para testar o tempo. Se estivesse pouco frio sairiam dos seus abrigos para procurar comida, caso contrário voltariam a adormecer o resto do inverno. A tradição foi trazida para os Estados Unidos onde hoje, dia 2 de Fevereiro, se celebra desde 1887 o Groundhog day, ou o dia da marmota, animal que também hiberna. Em Punxsutawney, um remoto local do estado da Pennsylvania, gente vestida à finais do século XIX levanta-se bem cedo para observar o comportamento de uma marmota adormecida... se a marmota vir a sua sombra haverá mais seis semanas de inverno, caso contrário a primavera não tardará.

Para mim, o dia 2 de Fevereiro será sempre o dia do aniversário daquele que fazia anos em Dia de Nossa Senhora das Candeias.

18 janeiro, 2017

Sem título #86

A distância permite-nos relativizar o choque, as paixões, as angústias e pôr em perspectiva os factos e os sentimentos. É verdade. Por isso talvez ainda não tenha passado o tempo suficiente.
Não passou, porque apesar de ser uma paz doce a que sinto, ainda desato a chorar em certas alturas só de pensar que era ali que devíamos estar juntos e que me falta um espectador atento e sensato. Esse bom senso que nasce connosco e que não se aprende na escola, nem se herda.
Esta paz doce que me acompanha (acompanhar é o termo) e que preenche uma ausência recente, que o tal tempo me vai ajudando a encarar com mais naturalidade, de vez em quando cede e deixa espaço a uma dor que não tem comprimido ou xarope que alivie.
O dia 15 passou, o Belenenses ganhou, o mundo vai girando sem tréguas nem compaixão mas, como já sabia, por muitas saudades que tenha não as mato Pai.

16 janeiro, 2017

Sem título #85

Em 2016 fui a três funerais, todos concentrados nos últimos cinco meses do ano. Ontem fui a outro no primeiro dia de anos que o meu pai já não está cá para festejar. 

Apesar de todos sabermos que toda a gente morre, e que cada nascimento corresponderá um dia a um funeral, é sempre difícil aceitar a partida. As crianças e os jovens têm a vida pela frente. Os jovens adultos apenas começaram a vida profissional ou pessoal e por vezes têm crianças pequenas aumentando a dimensão da tragédia. Os de meia idade ou os jovens idosos, já com alguns problemas mas ainda assim com saúde estável, teem ainda muito para viver e não gozam o merecido descanso da reforma. Os velhos de frágil saúde fazem-nos falta, especialmente quando não temos memória de um dia os ter conhecido pelo que contribuíram para aquilo que somos e fazem parte da nossa vida.

Das muitas palavras amigas que ouvi há cinco meses lembro que o momento da partida não representa os que se vão embora. O tempo nos ajudará a pôr essa memória em perspectiva no meio de tantas outras memórias felizes que temos, e ainda bem que as temos. 

O meu tio teve uma longa vida que à sua dimensão construiu à conta do seu trabalho e dedicação. Generoso, sempre ajudou o seu próximo e ontem foi comovente ver tanta gente que isso reconheceu. Para mim em particular teve uma atitude que não esqueço. Quando me candidatei para estudar fora e fui depois aceite numa universidade, a certa altura aguardava ainda pelo resultado das candidaturas a bolsas de estudo para poder decidir se ía e quando ía. Foi nessa altura que o meu tio me disse que eu deveria continuar os meus estudos independentemente das candidaturas às bolsas porque ele me patrocinaria. Não foi necessário mas sei que que o teria feito com gosto. 

Obrigada, tio.

02 novembro, 2016

Coisas que não mudam #371

(scroll down for English)
Dia 1 e 2 de Novembro são dias de celebração e memória, de Todos os Santos e Fiéis Defuntos. Este ano, as festividades da Igreja tocam mais perto. Na Catedral da Incarnação em Nashville a homilia de hoje centrou-se nos santos sem nome. Para começar o padre foi buscar um cálice a uma mesa lateral e colocou-o sobre o altar ao mesmo tempo que falava sobre Margaret McDonald Murray nascida em Nashville em 1880 numa familia irlandesa que tinha vindo para Nashville a partir de Brooklyn. Disse ainda o local onde nasceu (por nome de rua que, quem vive em Nashville reconhecerá) e a morada para onde se mudou depois de casar e onde veio a morrer de escarlatina com 29 anos depois de ter tido dois filhos. Após a morte de Margaret, o seu marido fez uma doação para aquela que viria a ser a Catedral da Incarnação na forma do cálice que estava hoje sobre o altar. O padre convidou a comunidade a pensar em todos os olhos que já tinham visto aquele cálice desde 1909 e todas as pessoas que tinham tocado nele (maioritariamente padres, mas também membros da comunidade que por ele tomaram o vinho santo)... como Margaret, a grande maioria já tinha partido. Boas pessoas que viveram vidas honestas mas que como tantos, ficaram anónimos na história. Não nos entristeçamos; mesmo que por cá já ninguém se lembre deles, Deus, que de todos cuida, sabe o nome de cada um. 

Antes de dar a missa por terminada o padre convidou a comunidade para subir ao altar depois de terminada a celebração para ver e tocar o cálice que deixou sobre o altar. No pé do cálice pode ler-se a gravação:

Em memória de Margaret McDonald Murray, 1880-1909
The 1st and the 2nd of November are days of celebration and memory, for All Saints and All Souls. This year the Church festivities ring close. At the Cathedral of the Incarnation in Nashville, today's homily focused on the saints with no name. To start, the priest picked up a chalice from a side table and placed it at the altar while he talked about Margaret McDonald Murray born in Nashville in 1880 to an Irish family that had relocated here from Brooklyn. He also named her place of birth (by street name, that anyone living in Nashville would recognize) and the address where she moved to after she married, and where she died of scarlet fever at age 29 after having two children. After Margaret's death, her husband made a donation to the future Cathedral of the Incarnation in the form of the chalice that was standing in full view over the altar today. The priest invited the community to think of all the eyes that beheld that same chalice since 1909, or the hands that touched it (in this case mostly priests, but also members of the community who drank the holy wine from it)... like Margaret, the vast majority had already passed away. Good people that lived honest lives but that, as so many others, remained anonymous in history. Let us not get saddened; even if down here no one remembers them anymore, God, who cares for all, knows each one by their name.

Before finishing the mass, the priest invited the community to come up to the altar after the mass was ended and look at and touch the chalice that remained at the altar. At the base one can read the engraving:

In memory of Margaret McDonald Murray, 1880-1909

26 outubro, 2016

Para pensar e agir / To think and to act

(scroll down for English)
Hoje fui assistir a uma palestra inserida na série de palestras que Vanderbilt organiza anualmente sobre o Holocausto há 39 anos (é a mais longa série de palestras sobre o tema continuamente organizada por uma universidade). Falou o padre Patrick Desbois, francês de 61 anos, que há 14 dedica a sua vida a investigar o Holocausto praticado pelas unidades móveis Nazis. Em vez de transportarem judeus para campos de concentração, enviavam unidades militares de atiradores que cercavam localidades na Europa de leste, separavam os judeus, que depois fuzilavam e enterravam em valas comuns de grande escala.

O padre Desbois interessou-se pela matéria por razões de família. O seu avô, soldado francês foi feito prisioneiro de guerra em 1944 e levado para um campo de detenção na Ucrânia. Depois da guerra regressou à França mas recusou-se a falar sobre o assunto. Sob insistência do seu neto apenas disse, visivelmente irritado, que a vida no campo não era fácil, mas era muito mais difícil fora do campo. O padre Desbois tinha 17 anos quando o seu avô morreu, fez-se padre depois, e mais tarde teve a oportunidade de visitar Rawa-Ruska o local do dito campo de detenção. Antes da guerra mais de 10,000 viviam nesta localidade e foram todos mortos. Ainda assim, não encontrou nenhum memorial que o indicasse e ninguém parecia saber do assunto. A questão era pois saber como fora possível matar 10,000 pessoas sem que ninguém soubesse de nada. O padre Desbois regressou a Rawa-Ruska mais tarde, quando um autarca de inclinação menos soviética lhe falou da vala comum daquela localidade, que alguns anciãos ainda conseguiam indicar visto que eram crianças na altura. Desde então a organização do padre Desbois já localizou mais de 1,800 valas comuns na Lituânia, Polónia, Bielorussia, Ucrânia, Moldavia, Roménia e Rússia, que incluem cerca de 1.5 milhões de Judeus. Mais pessoas morreram nesses fuzilamentos que em Auschwitz.

O padre Desbois tem uma dupla missão. Por um lado trazer ao conhecimento geral a face menos conhecida do Holocausto em memória das vítimas quase sempre esquecidas. Por outro, educar acerca das horrorosas práticas de genocídio que não foram abandonadas no início dos anos 40. Para além de equipas a trabalhar na Ucrânia e outras localidades do leste europeu, a organização do padre Desbois tem também equipas no terreno no Iraque onde o daesh pratica o mesmo tipo de horrores contra os yazidis hoje. 

Quem hoje se junta ao daesh é educado (como eram os nazis), usa a internet e vem de vários países ocidentais. Como em 1942, cercam localidades, executam as comunidades yazidis publicamente para reinarem pelo medo, ameaçam o estilo de vida pacífico seja no Mossul ou em Bruxelas. A ONU, a Igreja católica, ou os governos de vários países fazem muito pouco para ajudar as populações desesperadas. Em 1942 também não foram os governos a ajudar os judeus, foram os cidadãos comuns. Quando o padre Desbois perguntou à sua avó, católica fervorosa, se ela alguma vez tinha ajudado judeus na sua remota aldeia francesa a resposta dela foi peremptória "não sei, nunca lhes perguntei se eram judeus... eram pessoas que precisavam de ajuda!" O padre Desbois não tenciona obrigar as organizações internacionais a fazer mais do que fazem neste momento. Com o seu forte sotaque francês diz que não tem tempo para isso. Há pessoas que vão morrer hoje. Só consegue dormir à noite porque se foca mais ao nível (micro) das pessoas que pode ajudar e menos ao nível (macro) geral do problema global dos refugiados.

Jerusalém tem hoje o Jardim dos Justos entre as Nações onde as árvores comemoram cada indivíduo que ajudou judeus durante a segunda guerra mundial (por exemplo Aristides de Sousa Mendes). Todas juntas fazem uma floresta, mas cada árvore representa uma pessoa agindo individualmente. Uma pessoa fez a diferença na altura e uma pessoa pode fazer a diferença hoje. Quer façamos uma doação online, quer eduquemos os jovens, ou doemos o nosso tempo e vida a esta causa, cada um de nós tem um papel a desempenhar.

Depois da palestra hesitei entre aplaudir em reconhecimento do trabalho feito, ou ficar em silêncio por respeito aos que em silêncio ficaram há mais de 70 anos e cujo trágico fim é hoje conhecido devido a pessoas como o padre Desbois. O desconforto surgiu: se eu vivesse em França em 1942 talvez não tivesse ajudado quem precisasse. E o meu estômago revirou-se, embora eu não tivesse comido nada que o provocasse.
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Today I attended a lecture, in the context of the Holocaust Lecture series organized by Vanderbilt for the past 39 years (it's the longest lecture series on the theme organized by a University). Catholic priest, father Patrick Desbois, french 61, spoke about his work relating to the Nazi mobile-killing units. Instead of shipping people to concentration camps, the Nazis deployed military units of shooters, that would surround villages in Eastern Europe, round up the Jews, who were then shot and buried in mass graves. 

Father Desbois got interested in the matter for family reasons. As a French soldier, his grandfather was arrested in 1944 and sent to a POW detention camp in the Ukraine. After the end of the war he returned to France but refused to speak of the matter. Upon insistence of his grandson, he got visibly upset and simply said that life in the camp was not easy but outside of the camp it was much worse. Father Desbois was 17 when his grandfather died, he became a priest later, and in 2002 he visited Rawa-Ruska, the location of the said POW camp. Before the war, 10,000 Jews had lived there and they were all killed. Yet there was no local memorial, and no one seemed to know anything about them. The question was therefore, how can 10,000 people be killed in a small village and no one know anything about it? Father Desbois returned to Rawa-Ruska later, when a less soviet-inclined mayor told him about the local mass grave, whose location was still known by some of the village elders, who were children at the time. Ever since, Father Desbois's organization has located more than 1,800 mass graves in Lithuania, Poland, Belarus, Ukraine, Moldova, Romania, and Russia, encompassing an estimate of 1.5 million Jews. More people died in those mass shootings than in Auschwitz. 

Father Desbois mission is double-edged. On the one hand, he brings to light a less known side of the Holocaust in memory of victims that are hardly ever remembered. On the other, he educates about the abhorrent practices of genocide which are by no means locked in the early 1940s. Beyond teams in the Ukraine and other locations in Eastern Europe, Father Desbois organization has teams working on the ground in Iraq where daesh practices the same type of horrors against the Yazidis presently.

People joining daesh today are well educated (as were Nazi Germans), use the internet, and come from various western countries. As in 1942 they surround local villages, execute local Yazidi communities publicly to rule by fear, threaten a peaceful way of life either in Mosul or in Brussels. The UN, the Catholic church, and country governments today do very little to help populations in distress. In 1942 governments did not help Jews either, it was individuals who did. When Father Desbois asked his grandmother, a fervent catholic, if she had ever helped Jews in her remote village in France her answer was clear "I don't know, I never asked them if they were Jews... they were people who needed help!" Father Desbois has no wish to shame international organizations into doing more than they are doing right now. In his heavy French accent he says he has no time for that. People will die today. He can sleep at night only by focusing at the micro level and less on the grand scheme of things.

In Jerusalem today, the trees in the Garden of the Righteous among the Nations commemorate each individual who helped Jews in the World War II (such as Aristides de Sousa Mendes). As a whole, it is a forest but each tree represents one person acting individually. One person made a difference then and one person can make a difference now. Whether we donate online, or we educate others, or we give our time and life to the cause, each of us has a role, and each of us can help.

After the lecture I was unsure if I should clap in appreciation, or remain silent as a sign of respect to the silent ones whose lives come to light now because of people like Father Desbois. The uncomfortable feeling surfaced: if I had lived in France in 1942 I might not have helped. And my stomach was queasy, even though I had not eaten anything that should upset it.

20 outubro, 2016

Memórias #48

No passado fim de semana num supermercado português em New Jersey encontrei figos secos da Califórnia. É a comida ideal para se ter no gabinete e comer de quando em vez, quando a hora do almoço ainda vem longe, ou quando já lá vai há um tempo e o estômago começa a dar sinais que existe.
Estes figos californianos não são maus, mas sempre que como figos secos vêm-me memórias de infância quando os figos se secavam ao sol nos verões abrasadores e pouco chuvosos da baixa Beira Baixa. Lembro-me da minha avó os dispor muito juntinhos em tabuleiros que cuidadosamente colocava em cima do telhado baixo, e pouco inclinado, da cabana que cobria as alfaias agrícolas. De tempo em tempo, tirava-se o tabuleiro e viravam-se os figos para que secassem totalmente. Quando a secagem estava completa despejavam-se os figos para uma larga bacia de barro onde eram passados por uma mistura de água a ferver com alguma aguardente e certamente algo mais que não recordo... com a idade em dígitos únicos apenas observava o processo, embora, sem me aperceber que o fazia, fosse mentalmente tirando notas.
Também não me lembro do que se fazia depois desta lavagem, se se deixavam secar os figos naturalmente dentro de casa ou se se colocavam novamente ao sol. O que me lembro claramente, é do sabor daqueles figos secos que ficou como padrão de comparação para todos os outros que viesse a provar. Ficavam (e ficam) todos a alguma distância daquela memória com décadas que talvez por isso, ou por trazer outras memórias de uma infância feliz, seja idealizada e não necessariamente exacta. Entendo agora que este processo de produção, laborioso e artesanal, se deve ter mantido sem grandes alterações durante gerações a fio, transmitido de mães para filhas.

E provo outro figo seco da Califórnia depois de todos estes pensamentos que avivam memórias distantes... agora nem me parece nada mau.

12 outubro, 2016

Sem título #80

Dia 11 de Outubro de 2016, ao fim do dia
Dois meses e várias mensagens (de apoio e carinho, especialmente desde a última crónica) depois, veio uma combinação de eventos simpáticos num só dia.

No correio uma bonança com a chegada de um postal de Lagos e um pacote com miminhos... quem tem uma mãe e uma irmã assim não precisa de outras!

Foi também o dia da grande campanha anual contra a gripe patrocinada pela universidade. Um evento de vacinação em massa que dá pelo nome de flulapalooza (uma autêntica fábrica de vacinar pessoas, qual linha de montagem a funcionar das 6am às 6pm) onde tenho sido assídua participante desde que esteja em Nashville em Outubro. O trauma das seringas já não se manifesta há muito, mas à cautela, digo sempre que prefiro apanhar a vacina sentada porque já aconteceu ter desmaiado. Nunca me olharam de lado ao fazer tal pedido e à boa maneira americana a resposta é sempre com certeza! A outra vantagem é que me mandaram para o balcão das enfermeiras mais experientes em vez dos voluntários mais novos, que podem até ser muito qualificados, mas não teem décadas de prática. 

Correu tudo bem e à saída, depois de apanhar o icónico autocolante que hoje vi circular em muitas lapelas, passei por um stand de alerta para um outro evento a decorrer também em Outubro. Perguntei se podia levar um folheto... o senhor não só disse que sim como ainda me ofereceu uma bola anti-stress em forma de maçã vermelha que dá vontade de trincar.

Se cá estivesse, o meu Pai teria ficado contente com os sucessos do dia e teria dito, de forma não efusiva mas sentida, muito bem! Ao mesmo tempo, com aquela mão papuda e desajeitada, teria feito uma festa na minha cabeça.

10 setembro, 2016

Coisas bonitas #1


Faz amanhã um mês que o meu pai deixou de viver, mas faz hoje um mês que os médicos nos disseram que não podiam fazer mais nada. Ou seja, faz hoje um mês que deixámos de acreditar que as melhoras seriam possíveis e que começámos a lidar com a realidade da nossa vida sem o pai.

Durante seis semanas, mas especialmente nas últimas quatro dessas seis, vimos a saúde dele deteriorar-se. Para mim, o mais difícil foi conciliar a esperança de melhoras com a percepção de que se elas não viessem rapidamente, a situação não poderia prolongar-se muito mais tempo.

Saber que ele teve uma vida realizada e feliz, que não tinha inimizades ou zangas por resolver e que não sofreu muito tempo, ajuda a aceitar os factos. Quando a saúde do doente está de tal forma debilitada que não há solução, há que pensar no que é melhor para o doente e não ser egoísta.

Apesar disso, não posso deixar de me surpreender com a dificuldade de superar a tristeza que há um mês trago comigo. Nada que me impeça de funcionar com normalidade no dia a dia, lidando com alunos, colegas, ou assistentes (talvez porque já nada na minha vida quotidiana dependesse do meu pai... algo em que nunca tinha pensado antes). Ainda assim, os pensamentos tristes aparecem.

Tenho ao longo do último mês recebido muitas mensagens de carinho (e abraços prolongados quando não há palavras) de amigos, alguns deles partilhando memórias de quando passaram pela mesma situação e cujas palavras me confortam. Uma amiga pouco mais velha que perdeu o pai aos 16 anos, que me faz pensar quão mais difícil terá sido para ela perder o pai quando ainda precisava tanto dele; um amigo de 67 anos (menos 1 que o meu pai) que perdeu o pai há quase 30 anos e que diz que é raro o dia que não pensa nele; uma prima muito chegada que me confirmou isso mesmo e que já perdeu o pai há 17 anos. Não importa quando, é sempre cedo para se perder um pai e ao que entendo, o sentimento da perda é algo com que se aprende a lidar. Estou apenas no princípio dessa aprendizagem, mas lá chegarei.

As palavras da minha irmã também me confortam, sempre, e muito. Foi ela que notou que o nosso pai tinha 41 anos quando perdeu o pai dele e que nós estamos apenas à distância de um ano (para cima e para baixo)... enfrentamos pois esta situação todos com a mesma idade. Foram ainda as sábias palavras da minha irmã que me fizeram esta manhã olhar para uma borboleta azul e pensar: vejo-te nas coisas bonitas, pai!

20 janeiro, 2016

Inverno #41

E o resultado na manhã seguinte é este
Não está frio suficiente para que a precipitação seja neve nem a temperatura é alta suficiente para que seja água, por isso cai gelo que fica no chão e dificulta a vida qb tanto para andar como para conduzir.

A universidade não cancelou as aulas. Business as usual, mas como se leva mais tempo para chegar onde se quer é melhor saír mais cedo. Com os vidros do carro completamente gelados e as estradas cobertas de gelo e lama resultante dos carros que passam e derretem ligeiramente a camada superior (mas não o suficiente para a água escorrer e deixar o piso com aderência normal) decidi apanhar o autocarro. Saí de casa confiante, 10 minutos antes de ele passar, apenas para ver o autocarro anterior na paragem porque está tudo correndo com um atraso jeitoso. A 100 metros de distância era-me impossível correr para a avenida principal, que depois teria de atravessar para entrar no dito autocarro por isso fiz-me ao caminho. Como a temperatura não é muito baixa (senão estaria a nevar) caminhar durante 35 minutos não foi doloroso, mas estar constantemente atenta para não cair não foi agradável.

No gelo, andar como um pinguim e com passos de bebé
Foi este o conselho que me deram uns amigos que cresceram no midwest (onde esta informação é inata) e deu bom jeito esta manhã. Fácil não é dado este cenário:
Por misericórdia começou a nevar o que deixa uma camada branca (agora sim) de neve por cima do gelo permitindo ao calçado de rasto agarrar um pouco melhor ao chão e caminhar a uma velocidade quase normal. 
Finalmente a selfie ao fim de uma caminhada de 35 minutos...
...não é lá muito recomendável, mas sobrevive-se.

23 fevereiro, 2014

Caprichos #287

Lembro-me de em pequena não gostar de polvo. Nem de polvo nem de outros alimentos de consistência viscosa e aparência duvidosa como lulas ou caracóis. A antipatia pelos caracóis mantém-se, mas os anos levaram-me a apreciar bastante polvo e lulas. Ainda assim, apenas hoje me aventurei finalmente a cozinhar polvo, iguaria incomum nos supermercados americanos. Mas recentemente encontrei polvo congelado e limpo num supermercado perto de casa, vindo directamente da Tailândia e embalado no Massachusetts. Fiquei tão contente que tirei mesmo uma foto da prateleira do supermercado!
O meu maior receio era a maneira de cozinhar: não queria que ficasse com consistência de pastilha elástica que se mastiga, mastiga e não se desfaz, mas depois de consultar quem cozinha polvo há décadas (e sabe deliciosas receitas!), e de ver online alguns conselhos úteis, decidi mesmo comprar para um dia com calma tentar a sorte. O ideal para uma pessoa só seria cozinhar cada polvo individualmente. No entanto, como vinham aos pares, teriam de se descongelar simultaneamente e cozinhar (na panela de pressão, com pouca água e apenas durante dez minutos; super fácil!) de uma só vez para depois decidir o que fazer com eles em várias refeições... pensava eu, porque embora fossem dois polvos, eram pequenos e encolheram bastante durante a cozedura.
Reconhecido o encolhimento, concluí que tinha polvo no máximo para duas refeições por isso decidi cortar tudo em pedaços e usar uma parte hoje e outra mais tarde. Depois de tudo partido a pequena porção de polvo ficou ainda mais evidente.
A questão agora seria a de continuar com o plano de duas refeições com porções médias, ou apenas uma com porção maior que a conta. Fiquei-me pela primeira alternativa. Separei pouco menos de metade para um destes dias fazer um arroz de polvo (que, por causa do arroz, talvez não necessite de tanto polvo), e o com resto decidi fazer uma salada morna com os seguintes ingredientes: polvo em pedaços, batatas cozidas cortadas aos cubos, um pouco de cebola picada (a receita original não leva cebola, mas salada que é salada fica sempre melhor com ela), azeite e limão a gosto e por cima salsa picada. O resultado ficou óptimo!
Só lhe tinha posto um pouquinho mais de salsa, que entretanto acabou, mas para a próxima não faltará. Brevemente, arroz de polvo!

06 janeiro, 2014

Em dia de Reis



Morreu Eusébio.
Portugal está mais pobre e está mais pobre porque foi enterrado, hoje, um dos seus símbolos maiores.
Eu, que nem sou muito de adivinhar fatalidades, e achar que a sina é mais forte que o trabalho e a audácia, vi hoje na rua pessoas verdadeiramente tristes, e muitas delas nem viram Eusébio jogar. Neste cenário comecei a pensar por quem estas (ou outras pessoas) chorariam assim e vejo, também com tristeza, que talvez ninguém o conseguisse.
Num tempo em que as bolas pesavam, os relvados não o eram, em que a publicidade não ajudava os atletas a ter luz fora do estádio e os prémios eram um par de sapatos e uma camisa da Triple Marphel, Eusébio brilhou.
E ao brilho da exuberância da técnica, da agilidade e da resistência juntou-se o brilho que poucos têm: aquele que nunca o afastou dos seus, mesmo quando foi menos bem tratado, que nunca permitiu os tiques de arrogância que neste meio são tão comuns.
Impressiona-me a admiração, a inspiração que em seu redor originou, primeiro do clube que, em Portugal, o acolheu e que depois ele acolheu já sem jogar. Mas hoje vimos que vai muito além disso, muito além das cores dos clubes e muito além das fronteiras do país. Portugal está, por isso, mais pobre.
Percebi hoje o que é a “chama imensa”.
É dia de Reis, descansa em Paz Eusébio, que a Terra consiga ter mais como tu!!