13 abril, 2010

Palavras lidas #127

(Detail of) The Birth of Venus, Sandro Botticelli, 1485-6

Lição de Estética

"Mas que beleza há na poesia?"
Escuta, quando vês um grande amigo
rodeado de mulheres, quando estás
fascinado com a orquestra, e sob o reflector
resplandecem as cores de uma deusa
que desce seminua à plateia,
onde tu estremeces, escondido
em toda a multidão!, quando em noite
escura e serena amigos dançam sem mulheres
numa praça ao som de um
acordeão e tu ficas à parte; pois bem, isso
não é belo para ti? Também é belo
para um velho que se chama
crítico e acha beleza em muitas coisas
e que até se aventurou a descobrir no mundo
e talvez fora do mundo, coisas cada vez
mais belas, mas que diz, com amor: "que belo
é este poema!" E tu,
tu olhas-me sem sequer me dares um beijo?

Sandro Penna (1906-1977)
No Brando Rumor da Vida

Caprichos #133

Golden chandeliers at the Liceu last night... and the chorus!

12 abril, 2010

Parece que estou a ouvir #97


Heard it on the radio earlier this morning. The unpretentious music toned by a simple guitar, the soft voices, and the fabulous poem... what a wonderful combination! Could not believe the last (and mythical) Simon & Garfunkel's album is already forty years old.____________

The Boxer

I am just a poor boy though my story's seldom told
I have squandered my resistance
For a pocketful of mumbles such are promises
All lies and jest
Still, a man hears what he wants to hear
And disregards the rest

When I left my home and my family
I was no more than a boy In the company of strangers
In the quiet of the railway station running scared
Laying low, seeking out the poorer quarters
Where the ragged people go
Looking for the places only they would know

Lie-la-lie, lie-la-lie, lie-la-lie

Asking only workman's wages I come looking for a job
But I get no offers
Just a come-on from the whores on Seventh Avenue
I do declare, there were times when I was so lonesome
I took some comfort there

Lie-la-lie, lie-la-lie, lie-la-lie

Then I'm laying out my winter clothes
And wishing I was gone, going home
Where the New York City winters
Aren't bleeding me Leading me
Going home

In the clearing stands a boxer
And a fighter by his trade
And he carries the reminders
Of ev'ry glove that laid him down
Or cut him till he cried out In his anger and his shame
"I am leaving, I am leaving."
But the fighter still remains

Lie-la-lie, lie-la-lie, lie-la-lie

11 abril, 2010

Palavras lidas #126

Outra Oração

Ó Deus que preferes a compaixão
por aqueles que esperam em ti
e não a ira
concede-nos chorar longamente males que fizemos
de modo que mereçamos
tua consolação como uma graça

in O Dom das Lágrimas -- orações da antiga liturgia cristã

09 abril, 2010

No Times de hoje #114


Baltasar Garzón é de longe o mais mediático juíz espanhol pela sua carreira investigadora que prima contra a impunidade ao mais alto nível.

Foi Garzón que em 1998 emitiu o mandato de captura internacional a Augusto Pinochet (que tinha ido ao Reino Unido), para que este respondesse perante a justiça espanhola relativamente às acusações de tortura e desaparecimento de cidadãos deste país durante a ditadura Chilena. Pinochet chegou mesmo a ser preso, mas nunca foi extraditado para Espanha por alegadas razões de saúde -- as mesmas que o levaram ao Reino Unido -- tendo por isso regressado ao Chile são e salvo.

Garzón é agora investigado pela justiça espanhola porque em 2008 decidiu investigar o desaparecimento de 113,000 pessoas durante a guerra civil espanhola e os primeiros dez anos de ditadura Franquista. Garzón terá ignorado a lei de amnistia aprovada pelo parlamento espanhol em 1977 que colocou uma pedra sobre as (turvas) águas passadas do início da ditadura e permitiu a transição pacífica após a queda do regime em 1975.

Portugal e Espanha partilharam os infortúnios de ditaduras fascistas durante grande parte do século XX, mas a transição para a democracia não poderia ter sido mais diferente. Em Portugal tivémos uma revolução a fingir -- com flores e sem sangue -- em 1974, tivémos comunismo galopante até 1976 (ano da constituição, qual manifesto Marxista) com militares a fazerem de ministros, nacionalizações até à exaustão, grupos terroristas e atentados, e tivémos ainda mais dez anos de instabilidade política com governos minoritários e fracos que nunca terminavam os seus mandatos e onde se tentaram corrigir os erros dos verões quentes de 74 a 76. Em Espanha após a morte de Franco nos finais de 1975, Juan Carlos -- o designado sucessor -- sobe ao trono e facilita um governo de transição que culminou com a constituição de 1978. A estabilidade política chegou em 1982.

A suave transição terá sido benéfica para a economia espanhola enquanto Portugal perdia uma década cometendo erros clássicos, exemplo do que não se deve fazer nos manuais de economia, e tentando até hoje emendar a mão. O reverso da medalha é que em Espanha as pessoas não saíram à rua para se manifestar, calaram e reprimiram as injustiças passadas, amnistiaram factos por apurar.

De acordo com a lei internacional as amnisitias são ilegais, argumenta Garzón, havendo mesmo um precedente no Chile em que a amnistia não foi considerada, dado que o crime de rapto continua a existir enquanto os corpos não forem encontrados. A discussão legal não pára aqui e Garzón corre mesmo o risco de não voltar mais a exercer o magistério.

O Times traz um breve e inflamado artigo sobre o assunto. A Economist é mais sóbria, como sempre.

08 abril, 2010

48h em LX

A inconfundivel paisagem e a comida






02 abril, 2010

Palavras lidas #125

Todas as Palavras

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos
e substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina (1943)
Poesia Reunida
____________

Bem em espírito de sexta feira de paixão

01 abril, 2010

Numa sala perto de mim #129

Shock Corridor (1963) [Corredor sin retorno in Spanish] tells the story of a journalist investigating a crime that took place at a psychiatric ward. In order not to raise any suspicions, he poses as a mentally disturbed person and earns his passage to the world of the insane. From then on, there are moments of sanity, moments of despair, and absolutely no pattern. Excellent, but quite disturbing movie.

Numa sala perto de mim #128

Dersu Uzala (melhor filme estrangeiro de 1975) relata a história da amizade entre um comandante militar russo em missões exploratórias na Sibéria do início do século XX e um caçador asiático da região. O respeito, a confiança, e o trabalho árduo sob as mais extremas condições da natureza, reforçam os laços entre aqueles que dependem uns dos outros. O filme mostra também o lado decadente do ser humano... impressionante a familiaridade de certas passagens apesar do cenário hostil.

Numa sala perto de mim #127

Nueve Reinas (2000) a clever Argentinian movie about thieves, whose entrepreneurial spirit is striking... one wonders why these people are not driven to apply their brilliant ideas on a regular profession. Maybe the regularity of a 9-5 job is just tacky.

31 março, 2010

Palavras lidas #124

Não penso no inútil dano
Como que o amanhã me desdiz,
Pois, ser feliz por engano
Não é engano: é ser feliz.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Quadras

30 março, 2010

No Times de hoje #113

For a while the New York Times has been publishing a few articles on sleeplessness... calling it fully fledged insomnia sounds way too dramatic. Being a troubled sleeper for many years is somewhat of a concern to me. Fortunately the problem does not become the center of my life, though it has moments of undivided attention especially at nights (by definition) and some times during the day, when it becomes topic of conversation, or when I read the All-Nighters column. The column is especially interesting because it's contributed by authors coming from different backgrounds, usually all suffering from some form of sleeplessness, and offering practical, historical, or even somewhat scientific perspectives on the issue. The blurb is pretty self-explanatory:

What do you do when the world's asleep and you're awake? All-Nighters is an exploration of an ancient malady and modern fixation — insomnia. With contributions from writers, scientists, artists and others, it will document the many ways we approach sleeplessness — as a nuisance, a disease, a curse, an opportunity or even a gift.

Today's article focused on the literary-philosophical side of the issue. Here's the marking passage:

The importance of insomnia is so colossal that I am tempted to define man as the animal who cannot sleep. Why call him a rational animal when other animals are equally reasonable? But there is not another animal in the entire creation that wants to sleep yet cannot. (“On the Heights of Despair,” p.85)

29 março, 2010

Palavras lidas #123

Es verdad

¡Ay, qué trabajo me cuesta
quererte como te quiero!

Por tu amor me duele el aire,
el corazón
y el sombrero.

¿Quién me compraría a mí
este cintillo que tengo
y esta tristeza de hilo
blanco, para hacer pañuelos?

¡Ay, qué trabajo me cuesta
quererte como te quiero!

Frederico García Lorca, 1898-1936

25 março, 2010

Ditto #147

Artists can color the sky red because they know it's blue. Those of us who aren't artists must color things the way they really are or people might think we're stupid.

--Jules Feiffer

24 março, 2010

23 março, 2010

The mother's part...

Font sizeMother and Child, Klimt

Lo! as a careful housewife runs to catch
One of her feather'd creatures broke away,
Sets down her babe and makes an swift dispatch
In pursuit of the thing she would have stay,
Whilst her neglected child holds her in chase,
Cries to catch her whose busy care is bent
To follow that which flies before her face,
Not prizing her poor infant's discontent;
So runn'st thou after that which flies from thee,
Whilst I thy babe chase thee afar behind;
But if thou catch thy hope, turn back to me,
And play the mother's part, kiss me, be kind:
So will I pray that thou mayst have thy 'Will,'
If thou turn back, and my loud crying still.


William Shakespeare, Sonnet CXLIII

22 março, 2010

Córdoba

Córdoba, Andalucia

Canción del Jinete

Córdoba.
Lejana y sola.

Jaca negra, luna grande,
y aceitunas en my alforja.
Aunque sepa los caminos
yo nunca llegaré a Córdoba.

Por el llano, por el viento,
jaca negra, luna roja.
La muerte me esta mirando
desde las torres de Córdoba.

¡Ay qué camino tan largo!
¡Ay mi jaca valerosa!
¡Ay que la muerte me espera,
antes de llegar a Córdoba!

Córdoba.
Lejana y sola.

Frederico García Lorca, 1898-1936

Coisas que não mudam #123

There's something soothing about looking at (and hearing) the sea, and listening to the wind between the mountains... and nothing else.

Politeness #9


"(...) In the end, perhaps they were merely following the French literally: Respond, if you please. Left over from a time when graciousness couched demands as requests, the R.S.V.P. no longer functions. (...)"

Full article
here.

21 março, 2010

Coisas que não mudam #122

Wild flowers grow on the rocks even where there is no soil

Pormenores #49

Montserrat, Catalunya

No primeiro dia de primavera, um dos meus preferidos

É março ou abril?
É um dia de sol
perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?

É um dia de maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta,
insiste:
Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?


É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.

Eugénio de Andrade

20 março, 2010

Palavras lidas #122

On Bob Solow:

(...) In his own interview in the same volume, Solow explained his unwillingness to engage with the new classical economists: “Suppose someone sits down where you are sitting right now and announces to me that he is Napoleon Bonaparte. The last thing I want to do with him is to get involved in a technical discussion of cavalry tactics at the Battle of Austerlitz. If I do that, I'm getting tacitly drawn into the game that he is Napoleon Bonaparte.” (...)

pp. 12-3, complete text here

18 março, 2010

Espantos #239

A group on facebook
Si no sabes la diferencia entre "haber" y "a ver", no mereces vivir

Description
"Porque ni todo el mundo debería tener direcho a abrir la boca sin el consentimiento de los demás... y porque lápiz y papel deberían ser elementos más elitistas en nuestras vidas"

Outrageous language mishandlings occur everywhere.

17 março, 2010

S. Patrício

17 Março 2010

Palavras lidas #121

PLENO DE VIDA AGORA

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino quanto serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

Walt Whitman (1819-1892)
Cálamo
(tradução de José Agostinho Baptista)

16 março, 2010

Foi neste dia #130 (1521)


Há 489 anos, Fernão de Magalhães chegava às Filipinas, provando que se podia chegar a Leste por Oeste, um passo gigantesco no conhecimento geográfico do século XVI. Foi também nas Filipinas que Fernão perdeu a vida pouco mais de um mês depois, num conflito militar, mas bem poderia ter sido numa tempestade ou para o escorbuto: dos 235 homens que saíram em cinco barcos de Salúncar de Barrameda na Andalusia a 20 Setembro de 1519, 150 chegaram às Filipinas e apenas 18 regressaram a Espanha num barco solitário a 6 de Setembro de 1522. Apesar da morte do comandante e da elevadíssima perda de vidas da tripulação, a expedição foi um "sucesso" e os reis de Espanha apressaram-se (em 1525) a enviar mais uma expedição para o outro lado do mundo com o objectivo de reivindicar as Molucas dos Portugueses... guerrear o vizinho do lado ali à porta não teria tanto interesse.

Tenho acompanhado a viagem de circumnavegação que a Sagres está a efectuar até ao final de 2010 e o diário de bordo nem sempre regista pompa e festa, há momentos bem complicados em que o esforço de equipa e a experiência são as únicas armas contra os perigos do caminho. De qualquer forma, a aventura actual da Sagres faz-me pensar em quão diferente é o mundo de hoje em relação ao de há 489 anos atrás, onde não haviam mapas precisos para delinear o trajecto com antecedência, nem imagens de satélite ou radares que ajudassem a escapar ao mau tempo. Que expedição hoje, onde regressasse 7.6% da guarnição inicial, seria considerada um sucesso? O que nos separa de 1521 é o conhecimento e a tecnologia (sendo que o primeiro é patrocinado pela segunda)... nada mais.

14 março, 2010

Pedaços de Barcelona... não turística

Uma bela tarde pela cidade velha de Barcelona:
ruas estreitas do bairro gótico
claustros da sé
colunas do templo romano

(literalmente escondidas no meio de prédios medievais)


churros de chocolate

(se bem que os normais também sejam muito bons)


chocolate quente

ocasional claustro de palácio antigo
(geralmente parte de museu)

13 março, 2010

Coisas que não mudam #121

Religião vs Razão... a minha primeira experiência de teatro em castelhano (legendado em inglês): El encuentro de Descartes con Pascal joven... ¡fenomenal!

12 março, 2010

Coisas que não mudam #120

Good news are good news, no matter where you are. We are four and a half time zones away. This was the chat dialog:

D: hey
me: hey there, how are you doing dear?
D: have a minute? Want to share good news with you
me: sure, tell me
(...)

And they were excellent news indeed... CONGRATULATIONS D, and don't forget the happy song!! You know what you have to do ;-)

11 março, 2010

Memórias #40


P: ¿Conocéis la baraja española?
R: ¿Qué es la baraja española?

Só depois de ver as cartas é que me lembrei que sim, que as conhecia e há tantos anos que as não via.

Lembro-me de quando as vi pela primeira vez... eram esquisitas: muito mais vistosas e coloridas que as nossas, com os símbolos a encher quase toda a superfície da carta. De certa forma eram mais intuitivas uma vez que as copas eram copos e não corações, os ouros eram moedas de ouro e não losangos, as espadas eram mesmo espadas e não um coração invertido com um pé, e os paus não se pareciam com flores, mas eram mesmo paus embora mais parecidos com marretas ou bastões, de acordo com a palavra bastos em espanhol. No entanto, o hábito dos símbolos clássicos fazia-me sempre pensar duas vezes qual seria o naipe correspondente nestes. Lá teriam vindo de Espanha com uns caramelos quaisquer que sempre me interessaram muito mais.

Já não me lembro de quem eram as cartas, talvez de um tio que adorava a jogatana, mas que quando jogava se exaltava quase sempre... então se calhava a não ganhar, caía o carmo e a trindade. Mas era divertido vê-lo jogar com os outros tios já velhotes que comunicavam com expressões faciais se tinham muitos trunfos ou de que naipe estavam a corte. Ao fim de cada jogo criticavam-se uns aos outros por deixarem passar vasas imperdoáveis e discutiam complicadas questões de estratégia. Por vezes, durante o jogo, faziam comentários em forma de pista para o parceiro, até que o tal tio lembrava a todos, já exaltado, que o jogo tinha sido inventado por surdos mudos!

Fiquei ontem a saber que o aeroporto de Barajas em Madrid, mais não é que o aeroporto dos baralhos :-)

Foi neste dia #129 (2004)

Há seis anos em Atocha, Madrid

10 março, 2010

Ditto #146

Excellence can be attained if you care more than others think it's wise, risk more than others think it's safe, dream more than others think is practical, and expect more than others think it's possible.

--Unknown

08 março, 2010

Espantos #238

Nieve en la playa de Barcelona...

06 março, 2010

Numa sala perto de mim #126

Crazy Heart (2009). Boa história. Fantástica interpretação de Jeff Bridges que nunca esteve tão country. E a música...

05 março, 2010

Palavras lidas #120

"A minha mãe diz que na altura em que eu era bebé lhe doía a boca de me dar beijos. Não me lembro deles mas alguma parte minha deve ter saudades desse tempo porque sinto a falta de qualquer coisa que não sei exprimir, qualquer coisa leve e doce, um contacto, palavras, cheiros, uma espécie de ninho de que eu fosse o ovo feliz, um ovozito de nada, pintalgado, minúsculo."

António Lobo Antunes, esta semana na Visão

04 março, 2010

Caprichos # 132

Español #10

toque de queda = curfew = recolher obrigatório

tiro de esquina = corner kick = pontapé de canto
__________

aprende-se muito com a
cadena ser todas as manhãs

03 março, 2010

De palavra em palavra


De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia
.

Eugénio de Andrade

02 março, 2010

Numa sala perto de mim #125

Los Años Bárbaros (1998) baseado em factos reais da Espanha de Franco sem liberdade de expressão e com presos políticos em trabalhos forçados... bem familiar ao contexto português da mesma época. Uma bela aula de espanhol!

01 março, 2010

Palavras lidas #119

Fontes de luz, pois não eram outra coisa
(eram outra coisa, eu é que não sou capaz
de uma metáfora mais feliz) os dias
que vinham depois de manifestares
pela prática a tua maneira de ver o amor.

Rajadas de alegria (repito que não consigo
encontrar imagens mais claras) a fundirem
a calma por dentro do meu sono
com o desenho de um sorriso a dormir.
Ah, como é alarve o estoicicismo exagerado
e como é pobre a teimosa recordação.

Não falemos do passado, um de nós
registá-lo-á e embora a sua maneira de ver
as coisas não passe de uma maneira
de ver as coisas, chega a ser absurdo
perante o que nos aconteceu verificar
que cada facto foi pelo menos dois.

É tudo uma questão de óptica, mesmo
agora os livros que leio me modificam
e os que leio segunda e terceira vez
a mesma coisa, pergunto-me se ainda
sou eu, tranquilizas-me dizendo talvez.

Uma palavra que te dou, mais
inquieto, uns olhos fechados
que te entrego, tão sincero.
Fontes de luz, rajadas de alegria?
No fim nada de nada, coisa
pouca. Que não cabe na mão
e sobretudo não cabe no coração.

Helder Moura Pereira (1949)
Segredos do Reino Animal