Faz amanhã um mês
que o meu pai deixou de viver, mas faz hoje um mês que os médicos nos disseram
que não podiam fazer mais nada. Ou seja, faz hoje um mês que deixámos de
acreditar que as melhoras seriam possíveis e que começámos a lidar com a
realidade da nossa vida sem o pai.
Durante seis
semanas, mas especialmente nas últimas quatro dessas seis, vimos a saúde dele deteriorar-se. Para
mim, o mais difícil foi conciliar a esperança de melhoras com a percepção de
que se elas não viessem rapidamente, a situação não poderia prolongar-se muito
mais tempo.
Saber que ele
teve uma vida realizada e feliz, que não tinha inimizades ou zangas por
resolver e que não sofreu muito tempo, ajuda a aceitar os factos. Quando a saúde do doente está de tal forma debilitada que não há solução, há que
pensar no que é melhor para o doente e não ser egoísta.
Apesar disso, não
posso deixar de me surpreender com a dificuldade de superar a tristeza que há
um mês trago comigo. Nada que me impeça de funcionar com normalidade no dia a
dia, lidando com alunos, colegas, ou assistentes (talvez porque já nada na
minha vida quotidiana dependesse do meu pai... algo em que nunca tinha pensado
antes). Ainda assim, os pensamentos tristes aparecem.
Tenho ao longo do
último mês recebido muitas mensagens de carinho (e abraços prolongados quando
não há palavras) de amigos, alguns deles partilhando memórias de quando
passaram pela mesma situação e cujas palavras me confortam. Uma amiga pouco
mais velha que perdeu o pai aos 16 anos, que me faz pensar quão mais
difícil terá sido para ela perder o pai quando ainda precisava tanto dele; um
amigo de 67 anos (menos 1 que o meu pai) que perdeu o pai há quase 30 anos e
que diz que é raro o dia que não pensa nele; uma prima muito chegada que me
confirmou isso mesmo e que já perdeu o pai há 17 anos. Não importa quando, é
sempre cedo para se perder um pai e ao que entendo, o sentimento da perda é algo
com que se aprende a lidar. Estou apenas no princípio dessa aprendizagem, mas
lá chegarei.
As palavras da minha irmã também me confortam, sempre, e muito. Foi ela que notou que o nosso pai tinha 41 anos quando perdeu o pai dele e que nós estamos apenas à distância de um ano (para cima e para baixo)... enfrentamos pois esta situação todos com a mesma idade. Foram ainda as sábias palavras da minha irmã que me fizeram esta manhã olhar para uma borboleta azul e pensar: vejo-te nas coisas bonitas, pai!